quinta-feira, 19 de maio de 2011

O MISTÉRIO PASCAL: ORIGEM, APLICAÇÃO LITÚRGICA, DESVIOS E RETOMADA PELO CONCÍLIO VATICANO II

O MISTÉRIO PASCAL: ORIGEM, APLICAÇÃO LITÚRGICA,
DESVIOS E RETOMADA PELO CONCÍLIO VATICANO II
http://revistas.pucsp.br/index.php/reveleteo 11
Revista Eletrônica Espaço Teológico ISSN 2177-952x vol. 4, n.6, jun/dez, 2010, pp. 08-16
_____________________________________________________________________________

1. Antes do mistério, a Páscoa
O termo Mistério Pascal para a teologia atual está ligado diretamente à páscoa de Jesus. Embora tenha sido resgatado e amplamente divulgado pelo Concílio Vaticano II através de seu documento Sacrosanctum Concilium, sua criação é cristã e está diretamente ligada à páscoa, que por sua vez tem sua origem na Sagrada Escritura. No Antigo Testamento o termo páscoa está diretamente ligado aos ritos memoráveis da fé israelita, onde o cordeiro imolado era sinal de que Deus passou antes, livrando o povo do extermínio. É bom lembrar que o povo de Israel cunha o termo e sua significação a partir de ritos pagãos, o que mostra ser a páscoa, uma construção complexa nas suas origens. No Novo Testamento a páscoa se desenvolve e ganha um sentido mais amplo e mostra o desenrolar da comemoração de antes, que se torna completa e acabada através do sacrifício de Jesus a verdadeira vítima imolada. Toda a riqueza que reside dentro da morte redentora de Jesus parece estar contida de alguma forma também na instituição da última ceia. Nela é tornada presente, de modo misterioso, esta paixão que é ao mesmo tempo testemunho e obediência, expiação e luta, vitória e sacrifício imaculado. Ela é tornada presente sob os sinais de pão e vinho, os elementos de uma simples refeição, que são transformados em corpo e sangue de Jesus por meio da palavra consagradora e alimentam as pessoas que participam da mesa.

2. O termo Mistério Pascal na História da Igreja.
Embora o mistério pascal seja uma realidade que acontece desde os mais remotos tempos em que Deus age no meio do seu povo, o termo propriamente dito só aparece em meados do século II. Numa homilia sobre a páscoa é que Melitão de Sardes expressa o termo mistério pascal pela primeira vez. Fazendo um recorrido pela sagrada escritura ele afirma que Cristo é o mistério da páscoa. De forma poética ele assim se expressa: novo e antigo, eterno e temporário, perecível e imperecível, mortal e imortal é o mistério da páscoa.
Outros textos homiléticos aparecem no século II tratando do assunto, como também aparecem controvérsias e discussões principalmente sobre a palavra mistério e sua terminologia. Seguindo  história da Igreja são enormes as contribuições de muitos autores, principalmente os santos Padres, este tema.
Nesse contexto se desenvolve a reflexão sobre o mistério pascal e se constata que toda ela está embasada no processo histórico de salvação que se realiza plenamente em Cristo Jesus. Desta forma a Igreja continua a páscoa de Jesus através dos sacramentos e da liturgia. Para entender melhor os momentos pascais da ação de Deus na história, Valeriano dos Santos Costa assim se expressa:
A trajetória da visibilidade de Deus na história da salvação tem três momentos significativamente especiais, pelas suas características de aliança pascal. Ao modo de maravilha, Deus promove essas passagens, que se colocam a serviço da revelação e marcam o tempo e a história. O primeiro foi o êxodo dos hebreus, a Páscoa sonhada, realizada e celebrada no Antigo Testamento. Ela se tornou o referencial para o culto e para a vida cotidiana. O segundo momento foi a Páscoa de Jesus, suprema maravilha de Deus na história da humanidade. Seu início se dá com a encarnação e o ápice com a cruz e a ressurreição. O terceiro é o da Igreja e da celebração dos sacramentos para fazer memória e reapresentar em clave litúrgica em todos os tempos e para todos os povos o mesmo e único sacrifício redentor da cruz.

Primeiro milênio: o mistério pascal e sua centralidade na liturgia
A principal fonte de reflexão teológica do primeiro milênio foi a centralidade do mistério pascal, que se realiza e se expressa de forma especial na Eucaristia. A eucaristia, memorial da morte e ressurreição de Jesus, ao ser celebrada manifesta a vivência do mistério pascal. É em torno da eucaristia que os cristãos se reúnem e são alimentados para terem coragem de prosseguir sua caminhada no seguimento de Jesus. No primeiro milênio a espiritualidade cristã se desenvolve em torno deste mistério central que na liturgia se une à Palavra proclamada que também se torna central na celebração eucarística.
Na verdade, o que se buscava era garantir o essencial, a saber, a Páscoa. Tratava-se de celebrar o mistério pascal, e evitava-se tudo o que pudesse distrair ou ‘roubar a cena’ deste centro absoluto de nossa fé.
Na esteira da liturgia, além da eucaristia desenvolve-se também a celebração de outros sacramentos, sempre com a preocupação de que a mistagogia fosse a forma metodológica vigente, com participação ativa dos fiéis, povo de Deus que forma o corpo de Cristo. Destaque-se também neste período a adaptação da celebração às diversas culturas com suas características próprias.
Segundo milênio: saindo do essencial
As mudanças que acontecem em todos os âmbitos da vida humana são claras e não acontecem de uma hora pra outra. Assim também na liturgia e na reflexão teológica sobre o mistério pascal aconteceram e continuam acontecendo transformações e isso é um sinal de que estamos em um mundo em constante transformação também na evolução da reflexão e da clareza teológicas.
A reflexão teológica sobre o mistério pascal e sua aplicação na liturgia no decorrer do segundo milênio adquire características peculiares às quais vão se ausentando do essencial. Da centralidade do mistério pascal tão explícita no primeiro milênio, passa-se a uma reflexão mais voltada para uma teologia eucarística e do santos, enfatizando-se a presença real de Jesus na hóstia consagrada. Como foi dito antes as coisas vão tomando outro rumo como conseqüência de conjunturas históricas e eclesiais. Tudo o que no primeiro milênio era símbolo da presença pascal de Jesus no meio do seu povo, no segundo milênio foi se transformando em distanciamento partindo para uma maior valorização das devoções e cultos mais voltados para o que era mais externo.
Uma certa intelectualização da reflexão teológica passa para a celebração do mistério pascal e para os ritos a ponto de o povo não entender e não participar mais ativamente da celebração do mistério. Tudo se torna muitas vezes mera encenação e o essencial se perdera, diluindo-se em atitudes, estilos artísticos, rubricas rígidas e devoções escrupulosas. Com a característica simples e sóbria do primeiro milênio, a liturgia eucarística no segundo milênio passa a ter aspectos complicados, a missa solene se transforma num espetáculo pra a visão [...]5.

O Concílio Vaticano II: Retorno às fontes, corrigindo os desvios e resgatando o essencial.
O Vaticano II procurou resgatar e valorizar uma visão global da teologia do mistério pascal principalmente através da liturgia, tanto no que diz respeito aos sacramentos como também no sentido cultual, enfatizando a eucaristia como resgate do mistério pascal de Jesus Cristo na sua inteireza.
O Movimento litúrgico. Um longo caminho.
É salutar afirmar que historicamente nada se firma intacto por muito tempo. Assim também a teologia, a liturgia, a Igreja. O Concílio Vaticano II, suas reformas, sua teologia, principalmente a teologia litúrgica eclodem de um longo processo e neste processo está o Movimento litúrgico. Como o nome já diz o movimento litúrgico começa sua movimentação ainda no século XVIII, na esteira do Iluminismo filosófico na Europa que provoca o Iluminismo católico sempre na tentativa de acompanhar a evolução dos tempos. Inúmeros grupos de reflexão teológica surgem espalhados pelo mundo com destaque para o século XIX onde há um grande despertar teológico-litúrgico.
Muitos grupos de reflexão teológico-litúrgica gestaram as reformas que culminaram na grande reforma do Vaticano II. Principalmente na Europa e também em outras partes do mundo as reflexões eram feitas em tom de muito otimismo. Mas também aconteceram contratempos, divisões do clero, intervenções da cúria romana, tudo com certo medo do novo que surgia. Mas o que é notório nesta caminhada é que tudo concorria para um caminho sem volta no sentido positivo da expressão, caminho este que culminou no que se chamou de novo Pentecostes, ou seja, o grande Concílio Vaticano II.
A Sacrosanctum Concilium
A constituição conciliar sobre a sagrada liturgia foi o primeiro documento do concílio e com sua novidade temos a oportunidade de resgatar teologicamente o que se perdera ao logo do segundo milênio, ou seja, o mistério pascal como centro da nossa fé. O Concílio Vaticano II redescobriu, resgatou o termo mistério pascal e sua teologia que tem sua aplicação no celebrar, ou seja, na teologia litúrgica. Resgata-se a centralidade do mistério pascal: A eucaristia é celebração do mistério pascal, memorial da morte e ressurreição do Senhor Jesus. Resgata-se o verdadeiro sentido do ‘mistério da fé’: ‘Anunciamos, Senhor, a vossa morte, e proclamamos a vossa ressurreição [...]’.6
O texto do documento conciliar resgata a reflexão sobre o mistério pascal do ponto de vista teológico e pastoral a fim de que o mistério celebrado seja vivido e atualizado através dos tempos na comunidade e que a participação seja plena, consciente e ativa.7 A presença do ressuscitado no meio da comunidade faz com que Deus seja glorificado e todas as pessoas sejam santificadas.
Há também a preocupação com a formação dos ministros ordenados para que façam as devidas ligações entre as áreas da teologia, a espiritualidade e a pastoral para que se destaque o mistério de Cristo e a história da salvação.
O Concílio Vaticano II no seu todo
É importante salientar que no conjunto da teologia dogmática e da história do dogma em geral no que diz respeito ao tema deste trabalho, ou seja, o mistério pascal, o documento sobre a sagrada liturgia do concílio Vaticano II é uma referência apenas se tomarmos a reflexão teológica a partir do fato, no caso, o fato litúrgico e/ou a partir dele. Mas a liturgia não esgota a teologia nem a ação da Igreja, por isso mesmo o concílio lembra que a Igreja deve estar em constante processo de evangelização e de conversão.
Além disso, os demais documentos do Concilio Vaticano II devem ser colocados todos, no seu conjunto como uma grande atualização da reflexão teológica nos vários âmbitos de atuação da Igreja como agente da evangelização e consequentemente do mistério da vida, paixão, morte e ressurreição de Cisto.
O abismo que se criou entre a teologia do primeiro e do segundo milênios foi sanado pelo concílio, resgatando as origens da fé cristã, retomando o eixo perdido e fazendo com que a
ação da Igreja, que deve ser a do Cristo, seja fiel àquilo que é fundante em nossa fé.
Conclusão
O tema inicial deste pequeno trabalho é bastante amplo. A partir do tema do mistério pascal se desenvolvem a dogmática e sua teologia com todos os seus desdobramentos.
O que cada época produz como reflexão teológica é fruto do caráter interdisciplinar que a teologia e todas as ciências devem estar sujeitas. Os abismos que se formam nas reflexões e práticas teológicas são por si e pela ação do Espírito Santo passíveis de serem corrigidos.
Prova disso é a distância que se criou entre o primeiro e o segundo milênio no que diz respeito ao mistério central da nossa fé e o resgate proporcionado pelo Concílio Vaticano II. Assim caminha a Igreja nos passos daquele que mostrou ao mundo que Deus caminha com seu povo, Cristo Jesus.
Bibliografia:
CNBB. A sagrada liturgia constituição sacrosanctum concilium. Edição didática popular,
comemorativa dos 40 anos do 1º documento do Concílio Vaticano II. Brasília: 2002.
CONSTITUIÇÃO SACROSANCTUM CONCILIUM SOBRE A SAGRADA LITURGIA
(SC). N. 14 In: Documentos do Concílio Vaticano II, 2ª ed. São Paulo: Paulus, 1997.
COSTA, Valeriano S. Viver a ritualidade litúrgica como momento histórico da salvação. São
Paulo: Paulinas, 2005.
DA SILVA, J. Ariovaldo. A reforma “eucarística” do concílio vaticano II vista dentro do
contexto histórico geral da liturgia. CNBB A eucaristia na vida da igreja (Estudos da CNBB
89), São Paulo: Paulus, 2005.
___________, O domingo páscoa semanal dos cristãos. São Paulo: Paulus, 1998.
JUNGMANN, Josef A. Missarum sollemnia: origens, liturgia, história e teologia da missa
romana. São Paulo: Paulus, 2009.
LACOSTE, Jean-Yves. Dicionário crítico de teologia. SãoPaulo: Paulinas, Loyola, 2004.
SARDES, Melitão de. Mistério Pascal. In: Dicionário de Liturgia, São Paulo: Paulus, 1992.
SESBOÜÉ. Bernard; WOLINSKI. J. O Deus da salvação. Tomo 1. São Paulo: Loyola. 2ª ed. 2005.
VIGIL, José Maria. Vivendo o concílio. São Paulo: Paulinas, 1987.
Notas
Mestrando em Teologia Sistemática, com concentração em Liturgia na Faculdade de Teologia da PUC-SP.
1 JUNGMANN, Josef A. Missarum sollemnia: origens, liturgia, história e teologia da missa romana. São Paulo:
Paulus, 2009, p. 192.
__________________________________________________________________________________________
http://revistas.pucsp.br/index.php/reveleteo 15
Revista Eletrônica Espaço Teológico ISSN 2177-952x vol. 4, n.6, jun/dez, 2010, pp. 08-16
2 SARDES, Melitão de. Mistério Pascal. In: Dicionário de Liturgia, São Paulo: Paulus, 1992, p. 772.
3 COSTA, Valeriano S. Viver a ritualidade litúrgica como momento histórico da salvação. São Paulo: Paulinas,
2005, pp. 92 e 93.
4 DA SILVA, J. Ariovaldo. A reforma “eucarística” do concílio vaticano II vista dentro do contexto histórico
geral da liturgia. CNBB A eucaristia na vida da igreja (Estudos da CNBB 89) , São Paulo: Paulus, 2005, p. 13.
5 DA SILVA, J. Ariovaldo. Op. cit., p. 17. Em seu artigo, o autor explica de uma maneira simples e bem
elaborada este assunto.
6 DA SILVA, J. Ariovaldo. Op. cit., p. 20.
7 Cf. Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a sagrada liturgia. In Documentos do Concílio Vaticano II, 2ª
ed. São Paulo: Paulus, 1997, n. 14.
8 Cf. Constituição Sacrosanctum Concilium, n.5,10.
9 Cf. Constituição sacrosanctum concilium, n.16.
10 Cf. Constituição sacrosanctum concilium, n. 9.

0 comentários: