Fazei isto em Memória de Mim (1Cor 11,14)
Fonte: Lista Exsurge Domini
Autor: D. Estevão Bettencour
Transmissão: Ontologico
Um bom artigo sobre a Eucaristia, dentro da Mistagogia Liturgica. (Síntese da Apostila de Liturgia: Mater Ecclesiae de Dom Estevão Bittencourt)
Muito ligado ao conceito de MYSTÉRIUM está o de memória (ANÁMNESIS, em grego). Jesus mandou repetir o que ele fez (eis ten emém anámnesin) (1Cor 11,24 e Lc 22,19).
MEMÓRIA NO ANTIGO TESTAMENTO
Os significados da palavra de Jesus deve ser deduzido do Antigo Testamento que falam de memória (zeker) ou de recordar-se (zakar). É o conceito base da espiritualidade pré-cristã zkr (lembrar), não é apenas um "lembrar-se do passado", mas é um lembrar-se eficiente, um acontecimento atuante e criativo. Assim, Deus se lembra de determinadas pessoas e concede-lhes sua graça e misericordia. "Quando Deus destruiu as cidades da planicie, Ele se lembrou de Abraão e retirou Lot do meio das castatrofes (Gn 19,29). "Então Deus se lembrou de Raquel; Ele a ouviu e a tornou fecunda (Gn 30,22). Pelo fato de Deus recordar-se dos homens, surge situaçoes novas, principalmente em favor das pessoas recordadas. "Deus ouviu os gemidos do seu povo o Egito Deus lembrou-se de Abraao, Issac e Israel" Ex 2,24; Lv 1,42; Ez 16,60. De fato, os homens devem recordar de Deus com os seus beneficios. (Dt 5,15; 9,7; 32,7; etc........).
MEMÓRIA NO NOVO TESTAMENTO
1) Visao Geral
No N.T. temos a visão de "memória e recorda-te". No cântico de Zacarias lê-se: "Socorreu Isabel seu servidor, recordando do seu amor", Lc 1,17 e 22). Na passagem da conversão de Cornélio em (At 10,4). O bom ladrão disse: 'Jesus, lembra-te de mim, quando entrardes no teu paraíso (Lc 23,42). Quando Jesus se refere ao Espírito Santo, o lembrar não é estático, mas criativo; vem a ser o novo modo de conhecer as coisas passadas. "O Espírito vos recordará de tudo e vos lembrará de tudo que eu vos disse" (Jo 14,26). O mandato confiado a Jesus a Igreja é confiado ( 1Cor 11,24s).
2) Mandato da Ceia
Para os judeus, a Páscoa era um memorial. (zikkaron), que torna presente ou atualizava a atuação do povo iniciada por ocasião da saída do Egito. Todo os anos, os judeus celebram a Ceia Pascal, recordando aquele acontecimento como se fosse vivendo ou como tivessem presente. (Ex 13,8). A idéia do passado que estivesse presente está em (1 Cor 11,26). Esse anunciar é um acontecimento e algo já ocorrido. Jesus ao celebrar a Eucaristia, ofereceu como remissão dos pecados ( Mt 26,27; Mc 14,24 e Lc 22,19s). Jesus quis que os discípulos repetissem os seus gestos (anánamises ou zikkaron), atualizando e tornando presente a Santa Ceio no Sacrifício do Senhor feito na Sexta-feira da paixão.
3) Eucaristia
Conscientes de que estavam celebrando um memorial no sentido bíblico-judaico, os antigos repetiam a Ceia dos cristãos retomando as preces de ação de graças. É o memorial da paixão, acompanhada de bênçãos e louvores (berakot). É da ação acompanhada com bênçãos e louvores. É dessa moldura da ação de graças, característica da Ceia Judaica , que provem o nome grego de Eucaristia.
4) Anamnese em cada Eucaristia
4) Anamnese em cada Eucaristia
Na anamnese sempre foi a consagração Eucarística. "Fazei isso em Memória de Mim". É memória e Sacrifício, e a memória equivale a mesmo e único sacrifício de Cristo; Memória equivale a oferta do Sacrifício do Corpo e Sangue de Jesus. Não se trata de uma "recordação psicológica", mas perpetua e torna presente o Sacrifício de Cruz (sem o multiplicar). Ela renova e multiplica sim, a CEIA DO SENHOR. Cristo ofereceu uma vez na Cruz, para que tornar-se presente tantas vezes quando celebramos a Ceia Eucarística. Por isso que na Missa, os católicos reconhecem sua real presença de Deus, para que nós nos tornássemos presente em Jesus toda vez quando Celebramos a Ceia Eucarística.
Apologética
Em memória de mim
Fonte: Lista de debate Veritatis Splendor
Autor: Dom Odilo Pedro Scherer (Bispo Auxiliar de São Paulo Secretário-Geral da CNBB)
Autor: Dom Odilo Pedro Scherer (Bispo Auxiliar de São Paulo Secretário-Geral da CNBB)
Entre os vários aspectos da fé da Igreja Católica na Eucaristia, na Encíclica Ecclesia de Eucharistia (EE) o Papa João Paulo II recorda que ela é o “memorial” de Jesus Cristo. A Eucaristia não é relacionada apenas com um gesto ou uma atitude em particular de Jesus, mas é o sacramento de sua pessoa e de sua obra redentora, no sentido mais pleno. Assim compreendemos bem o que o Concílio Vaticano II disse, e o Papa repete: “na santíssima
Eucaristia está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo” (EE 1).
Eucaristia está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo” (EE 1).
Com efeito, quando a Igreja celebra a Eucaristia, é Jesus Cristo que a convoca e reúne mediante a palavra da fé; na pessoa. do ministro ordenado, é o próprio Jesus que preside a comunidade eucarística (cf. SC 7). E quando se proclamam as Escrituras durante a celebração, é ainda Ele quem fala e evangeliza o seu povo. Quando a comunidade celebrante oferece preces e louvores ao Pai, é Jesus Cristo, Pontífice da nova e eterna aliança, quem apresenta a Deus Pai as oferendas e oblações. E é Jesus que continua a se doar como alimento aos que se aproximam para recebê-lo na comunhão. Finalmente, quando a celebração é encerrada, Jesus envia novamente seus discípulos em missão para levarem a boa nova a toda criatura.
O Papa recorda o sentido e valor sacrifical da Eucaristia: é o sacramento do sacrifício de Jesus oferecido uma vez por todas sobre o altar da cruz (EE 12). O próprio Jesus no momento da instituição da Eucaristia, durante a última ceia, deixou claro isto: entregando aos apóstolos o pão – “meu corpo” – Jesus aludiu à “entrega” deste corpo sobre a cruz em favor da humanidade; da mesma forma, ao lhes passar o cálice com o vinho – “meu sangue” – aludiu ao derramamento do seu sangue na paixão. A Eucaristia recorda a entrega livre, amorosa e total de Jesus a Deus Pai, em favor da humanidade; por isso ela é sacrifício verdadeiro (EE 13).
A Eucaristia é o memorial da paixão, morte e ressurreição de Jesus; não se trata de mera lembrança do passado, mas é presença sacramental. É o sacrifício de Jesus que se perpetua através dos séculos” (EE 11). Também não é repetição do passado, não é outro sacrifício: é o único e suficiente sacrifício de Jesus pela nossa salvação, que se torna presente e atual, para que também nós tenhamos parte nele hoje e se realize assim a obra da nossa redenção, no presente. A Igreja vive continuamente deste sacrifício redentor e tem acesso a ele não somente através de uma lembrança cheia de fé, mas também mediante um contacto atual. E, “por Cristo, com Cristo e em Cristo”, também ela oferece o sacrifício espiritual de si própria a Deus Pai (cf. LG 11).
Mas não é somente o mistério da paixão e morte de Jesus que é tornado presente, quando a comunidade se reúne para celebrar a Eucaristia: ela também faz a memória de sua gloriosa ressurreição dentre os mortos. Por isso ela aclama: “proclamamos vossa ressurreição”. A Igreja reconhece e anuncia que Jesus está vivo e presente no meio dela: “ele está no meio de nós!” O Ressuscitado é o “pão vivo” e vivificante, que se doa continuamente para a vida do mundo e nutre a humanidade a caminho do reino definitivo (EE 14).
Mas não é somente o mistério da paixão e morte de Jesus que é tornado presente, quando a comunidade se reúne para celebrar a Eucaristia: ela também faz a memória de sua gloriosa ressurreição dentre os mortos. Por isso ela aclama: “proclamamos vossa ressurreição”. A Igreja reconhece e anuncia que Jesus está vivo e presente no meio dela: “ele está no meio de nós!” O Ressuscitado é o “pão vivo” e vivificante, que se doa continuamente para a vida do mundo e nutre a humanidade a caminho do reino definitivo (EE 14).
Por aí podemos compreender melhor o título que o Papa deu à Encíclica: “Ecclesia de Eucharistia” (A Igreja vive da Eucaristia). De fato, mais do que em qualquer outro sacramento, é na Eucaristia que a Igreja é continuamente congregada pelo seu Senhor, nutrida por Ele mediante o anúncio do Evangelho e pelo Pão da vida, redimida pelos méritos de seu sacrifício pascal, estimulada a viver na unidade da fé e da caridade, animada na esperança e enviada em missão. A Igreja tem os olhos continuamente voltados para seu Mestre e Senhor, que a conduz como Bom Pastor e por ela intercede sem cessar junto do Pai; de Jesus, ela recebe vida em abundância, mediante a efusão do Espírito Santo.“Fazei isto em memória de mim” (Lc 22 19): esta ordem de Jesus na instituição da Eucaristia lembra continuamente a Igreja que ela está indissoluvelmente unida à pessoa e à missão de Jesus Cristo; Ele mesmo, com tudo o que fez e ensinou, permanece a referência irrenunciável para tudo o que a Igreja faz e vive. Lembra ainda que a missão de Jesus continua presente no tempo através da Igreja; esta missão só será eficaz quando a Igreja se une estreitamente ao seu Mestre e Senhor, como é significado e realizado na celebração do sacramento da Eucaristia.
O conceito bíblico de Memorial
Fonte: Lista de debate Veritas
Autor: Ewerton Wagner Santos Caetano
Autor: Ewerton Wagner Santos Caetano
Veja excelente texto que põe abaixo toda a argumentação protestante baseada na idéia de que o memorial eucarístico é simples lembrança.
Sobre o conceito bíblico de "memorial"
Retirado do Dicionário de Liturgia, Paulinas.
Na eucaristia, o sacramento do altar, possuímos um 'memorial' da paixão do Senhor; esta é a convicção antiquíssima e evidente da fé, como afirma em termos clássicos a coleta da solenidade do SS. Corpo e Sangue de Cristo segundo o Missal latino de Paulo VI: "Deus, qui nobis sub sacramento mirabili passionis tuae memoriam reliquisti..." (o Missal em português traduz o texto da seguinte forma: "Senhor Jesus Cristo, neste admirável sacramento nos deixastes o memorial da vossa paixão..."). É verdade que o concílio de Trento selou com o anátema a idéia de que o sacramento seja "nuda commemoratio"; no entanto, o que ele pretendia condenar era uma concepção falsa e restritiva do "memorial', já que no mesmo contexto declarava que por meio do sacrifício da missa devia ser "representado o sacrifício cruento" realizado "uma vez sobre a cruz", de modo que "a sua memória perdurasse até o fim dos tempos". Tudo isto não causa espanto. Encontramos o memorial já nos relatos da instituição da Ceia: "Fazei isto em memória de mim" (1 Cor 11,24-25; cf. 22,19). Por isso, o Vat. II na SC 47
afirma: "O nosso Salvador... instituiu o sacrifício eucarístico... para perpetuar nos séculos, até a sua volta, o sacrifício da cruz, e para confiar assim à... Igreja o memorial da sua morte e da sua ressurreição". Todavia, o significado pleno deste termo nem sempre foi compreendido e valorizado como merecia. No contexto da reflexão sobre o alto grau de realidade que compete ao sacramento da eucaristia, a teologia medieval descuidou-se dos termos 'commemoratio', 'memoriale', 'memoria' como se fossem menos apropriados. Os reformadores do séc. XVI, na sua polêmica contra o caráter sacrifical da eucaristia, interpretaram e valorizaram no sentido mais fraco o seu caráter de memorial.
afirma: "O nosso Salvador... instituiu o sacrifício eucarístico... para perpetuar nos séculos, até a sua volta, o sacrifício da cruz, e para confiar assim à... Igreja o memorial da sua morte e da sua ressurreição". Todavia, o significado pleno deste termo nem sempre foi compreendido e valorizado como merecia. No contexto da reflexão sobre o alto grau de realidade que compete ao sacramento da eucaristia, a teologia medieval descuidou-se dos termos 'commemoratio', 'memoriale', 'memoria' como se fossem menos apropriados. Os reformadores do séc. XVI, na sua polêmica contra o caráter sacrifical da eucaristia, interpretaram e valorizaram no sentido mais fraco o seu caráter de memorial.
O sentido profundo da santa ceia não pode ser compreendido fora do quadro da tradição litúrgica do AT. Ponto de partida de todas as nossas reflexões é, portanto, o AT. No NT o termo grego 'anamnesis' ocorre somente em contextos litúrgicos cultuais e precisamente em Lc 22,19; 1Cor 11,24-25; Hb 10,3. "Ao estabelecer o seu significado, é necessário ter presente o conteúdo veterotestamentário-judaico do campo semântico da raiz zkr, no sentido de representação ou re-atualização do passado que jamais permanece simplesmente passado, mas que se torna eficazmente presente (cf. o memorial pascal em Ex 12,14; 13,3.8 e passim)". Assim fica bem resumida a opinião convergente da pesquisa hodierna. Como o demonstram as concordâncias, formas da raiz zkr ocorrem na Bíblia hebraica do AT cerca de 230 vezes. "Um exame dos textos em que Deus aparece como sujeito de zkr permite reconhecer que este verbo desempenha papel essencial na auto-revelação de Deus e delineia um traço fundamental na representação veterotestamentária de Deus" (H. Gross). Esta memória de Deus não é simples recordar-se , "porém é antes um comportamento de Deus que leva o próprio Deus a intervir de novo na realidade histórica... e que, portanto, extravasa na ação". Na santa eucaristia... proclamamos e celebramos o memorial das ações salvíficas de Deus. Deus não repete o que já realizou em Cristo (na sua morte e ressurreição)... Todavia, na celebração memorial da eucaristia não nos lembramos apenas de eventos passados: Deus se torna presente mediante o Espírito Santo. Quando é o homem o sujeito desta memória, deste zkr, não se trata de simples 'recordar'. A memória tende sempre "a trazer as conseqüências da recordação, da lembrança, tanto em relação ao cumprimento das promessas feitas, quanto a propósito da conversão e da volta a Deus". Isto se reveste de particular importância nas passagens em que zkr "exprime a obrigação que Israel tem de se dedicar à memória cultual, à celebração cultual em geral". "A instituição cultual de Deus, que para o homem é um memorial, na lembrança dos homens se torna por assim dizer uma 'perenização' da ação salvífica histórica realizada uma vez por Deus, perenização que põe à disposição dos homens a salvação todas as vezes que eles celebrem o memorial de tal ação salvífica". H. Gross diz como conclusão: "O conteúdo e a profundidade que o vocábulo cultual zkr tem no AT, as disposições e a atitude que ele requer do israelita crente se revestem de importância em nada desprezível para a compreensão do mandamento dado por Cristo em Lc 22,19; 1 Cor 11,24s".
Os autores não se cansam de esclarecerem toda a sua plenitude o significado do memorial veterotestamentário. Quer seja Deus, quer o homem o sujeito de tal lembrança, trata-se sempre de uma memória cheia de realidade: no seu recordar-se Deus entra em ação e concede salvação e graça; de modo semelhante, o recordar-se significa para o homem, como conseqüência, o seu voltar-se para Deus ou o cumprimento das promessas. O AT é todo pontilhado
de tais memoriais, particularmente nos salmos: Deus se lembra, isto é, "por força do seu poder criador, ele faz que tal memorial atinja a eficácia necessária"; e, se é o homem quem se lembra, este "pode ter confiança, porque, recordando-se, ele se abre à atualidade da ação histórica de YHWH". A ação de YHWH, que representa o fundamento ontológico de tal confiança, se faz sentir da maneira mais vigorosa "na recordação atualizante do culto". "O memorial judaico se concretizava da maneira mais intensa na festa dos tabernáculos (Lv 23,33ss), na festa de purim (Est 9,28) e sobretudo na da páscoa - O significado do 'memorial' para a celebração da páscoa judaica foi explicado a fundo por N. Füglister. A celebração anual da páscoa israelita é, como dia festivo, memorial. "Neste conceito de memorial, que se aplica de modo particular a Páscoa podemos sem dúvida ver o núcleo da liturgia pascal, a que podem de certo modo ser relacionados ou reconduzidos os ritos... objetivo é o de impedir que as ações salvíficas de YHWH caiam no esquecimento, de recordá-las continuamente trazendo-as à memória para, deste modo, renová-las e atualizá-Ias ano após ano. Isto não é apenas uma "representação subjetiva", porém antes uma "atualização objetiva". "Por ocasião da celebração da páscoa e mediante a celebração da páscoa, YHWH atualiza e representa todo ano a salvação 'pascal'; exatamente como no 'hoje' da festa deuteronômica da renovação da aliança não se tratava de 'evento puramente subjetivo - sem fundamento objetivo' -, mas de atualização da aliança do Sinai que perdura pelos séculos, de modo semelhante a ação salvífica divina da libertação de Israel do Egito de certa maneira se renova continuamente na celebração da sua memória". É evidente que o conceito de memorial assim entendido é da máxima importância para a plena valorização do mandamento de fazer memória deixado por Cristo. "Aquele que... de certo modo já se acha na base da temática da festa veterotestamentária da páscoa se torna realidade plena em escala maior na celebração neotestamentária da eucaristia: através do memorial objetivo, Deus e a sua salvação se tornam presentes aqui e agora. E, à medida que Deus se torna presente em Cristo, de certo modo se vai tornando pouco a pouco também a ação salvífica realizada
uma vez por todas".
de tais memoriais, particularmente nos salmos: Deus se lembra, isto é, "por força do seu poder criador, ele faz que tal memorial atinja a eficácia necessária"; e, se é o homem quem se lembra, este "pode ter confiança, porque, recordando-se, ele se abre à atualidade da ação histórica de YHWH". A ação de YHWH, que representa o fundamento ontológico de tal confiança, se faz sentir da maneira mais vigorosa "na recordação atualizante do culto". "O memorial judaico se concretizava da maneira mais intensa na festa dos tabernáculos (Lv 23,33ss), na festa de purim (Est 9,28) e sobretudo na da páscoa - O significado do 'memorial' para a celebração da páscoa judaica foi explicado a fundo por N. Füglister. A celebração anual da páscoa israelita é, como dia festivo, memorial. "Neste conceito de memorial, que se aplica de modo particular a Páscoa podemos sem dúvida ver o núcleo da liturgia pascal, a que podem de certo modo ser relacionados ou reconduzidos os ritos... objetivo é o de impedir que as ações salvíficas de YHWH caiam no esquecimento, de recordá-las continuamente trazendo-as à memória para, deste modo, renová-las e atualizá-Ias ano após ano. Isto não é apenas uma "representação subjetiva", porém antes uma "atualização objetiva". "Por ocasião da celebração da páscoa e mediante a celebração da páscoa, YHWH atualiza e representa todo ano a salvação 'pascal'; exatamente como no 'hoje' da festa deuteronômica da renovação da aliança não se tratava de 'evento puramente subjetivo - sem fundamento objetivo' -, mas de atualização da aliança do Sinai que perdura pelos séculos, de modo semelhante a ação salvífica divina da libertação de Israel do Egito de certa maneira se renova continuamente na celebração da sua memória". É evidente que o conceito de memorial assim entendido é da máxima importância para a plena valorização do mandamento de fazer memória deixado por Cristo. "Aquele que... de certo modo já se acha na base da temática da festa veterotestamentária da páscoa se torna realidade plena em escala maior na celebração neotestamentária da eucaristia: através do memorial objetivo, Deus e a sua salvação se tornam presentes aqui e agora. E, à medida que Deus se torna presente em Cristo, de certo modo se vai tornando pouco a pouco também a ação salvífica realizada
uma vez por todas".
Sobre a tela de fundo de estudos numerosos, devemos agora considerar a tentativa dos teólogos que, em número crescente, se perguntam expressamente - no contexto da pesquisa científica litúrgica e teológica geral, especialmente no campo da exegese e da dogmática - o que significa 'anamnesis' (memória, memorial, comemoração). A bibliografia nos apresenta inúmeros nomes ilustres, a começar pelo estudo de N. A. Dahl, até a contribuição de H. Patsch sobre a 'anamnese'. Reconhece-se a grande importância do conceito. Concorda-se, em larga escala, quanto à questão do seu quadro de origem e quanto ao grau de realidade da coisa entendida pelo
conceito. Enfim, tomou-se consciência de que tais cognições não são de pouco peso para a solução de muitas questões discutidas entre as igrejas separadas.
conceito. Enfim, tomou-se consciência de que tais cognições não são de pouco peso para a solução de muitas questões discutidas entre as igrejas separadas.
P. Neuenzeit realça primeiramente o sentido pleno do verbo katangéllein = pregar, anunciar, proclamar. "Trata-se sempre de uma comunicação, de uma transmissão de dados e de eventos... Da importância da mensagem e da
autoridade que lhe está por trás decorre o seu solene caráter 'dramático'. Em todo caso, a proclamação é comunicação de um evento a ela cronológica e objetivamente anterior, evento que não deve ser posto de novo, mas somente dado a conhecer. Por outro lado, tal tomada de consciência é de grande importância para todos os destinatários. 'Através destá comunicação o fato ocorrido se torna presente, isto é, a sua presença se revela (H. Schlier, Die Zeit der Kirche, 249)". Ora, tudo isto é verdade de modo particular na celebração do 'memorial'. "Em toda religião de revelação orientada para a história, o motivo do memorial desempenha grande papel, e assim acontece também no AT".
autoridade que lhe está por trás decorre o seu solene caráter 'dramático'. Em todo caso, a proclamação é comunicação de um evento a ela cronológica e objetivamente anterior, evento que não deve ser posto de novo, mas somente dado a conhecer. Por outro lado, tal tomada de consciência é de grande importância para todos os destinatários. 'Através destá comunicação o fato ocorrido se torna presente, isto é, a sua presença se revela (H. Schlier, Die Zeit der Kirche, 249)". Ora, tudo isto é verdade de modo particular na celebração do 'memorial'. "Em toda religião de revelação orientada para a história, o motivo do memorial desempenha grande papel, e assim acontece também no AT".
Trata-se de "memorial eficaz e real no repetição cultual do que aconteceu urna vez por todas".
A ordem de celebrar o 'memorial' no NT- O mandamento do Senhor: "Fazei isto em memória de mim" (Lc 22,19 = 1 Cor 11,24.25, com ampliação no v. 26: "Toda vez que comeis deste..., anunciais a morte do Senhor") pode e deve ser interpretado no sentido pleno que o termo anamnesis (e os sinônimos como 'mnemósynon', 'mnéme') teve na linguagem e no ambiente cultual veterotestamentário-judaico. Como testemunho deste ponto de vista, hoje
largamente compartilhado pelos exegetas (ainda que depois na interpretação teológica permaneçam diferenças até bem importantes), citamos as pesquisas de grande peso, porque profundas, de H. Schürmann. que escreve: "Já a analogia com instituições memoriais gentílicas e com a tradição festiva e especialmente pascal judaica induz-nos a pensar que aqui se ache estabelecida uma instituição destinada a ser, objetivamente em si mesma, instituição memorial. No contexto de Lc 22, o v. 19b poderia ser até explicado neste sentido: a consumação do cordeiro pascal está agora abolida; no seu lugar introduz-se uma nova ação... No contexto de Paulo, a ordem de Jesus assume, de maneira mais marcada, o caráter de mandamento memorial: ação já conhecida e ritualmente estabelecida é agora plasmada ou revista de modo tal que se possa tornar memorial do Senhor". Quanto a 1Cor 11, "todo o teor das considerações... tende a recordar que na eucaristia se trata do Senhor e do seu memorial... [Para Paulo], trata-se do caráter memorial da ceia do Senhor". As afirmações do v. 26 comentam, depois, o segundo
mandamento de repetir o gesto, "isto é, elas indicam o motivo pelo qual a eucaristia na sua realização subjetiva deve ser considerada memorial: ela é objetivamente anúncio da morte do Senhor-, e, mais exatamente, 'ação-anúncio' acompanhada da palavra. O memorial objetivo pode, sem a menor dúvida, "consistir também em uma palavra-anúncio liturgicamente estabelecida e pertencente ao rito". "Trata-se de uma 'ação memorial' que é simultaneamente 'memorial real', porque tudo o que aí é pensado está presente. O corpo sacrifical e sangue sacrifical presentes, como vê a Igreja com o seu olhar profundo, representam de modo particular a morte sacrifical
do Senhor. Com efeito, já vimos que nos relatos da instituição a morte sacrifical é experimentada como algo presente. Provavelmente em 1 Cor 11,26 Paulo pensa nesta reapresentação cultual, quando chama a ceia do Senhor como tal - e igualmente com grande probabilidade a ação com as palavras memoriais que a constituem - de 'anúncio da morte do Senhor'. Tal presença da morte sacrifical de Jesus é o pressuposto para que na eucaristia nós possamos ser alimentados com o corpo e sangue sacrifical do Senhor-como a igreja sempre entendeu".
largamente compartilhado pelos exegetas (ainda que depois na interpretação teológica permaneçam diferenças até bem importantes), citamos as pesquisas de grande peso, porque profundas, de H. Schürmann. que escreve: "Já a analogia com instituições memoriais gentílicas e com a tradição festiva e especialmente pascal judaica induz-nos a pensar que aqui se ache estabelecida uma instituição destinada a ser, objetivamente em si mesma, instituição memorial. No contexto de Lc 22, o v. 19b poderia ser até explicado neste sentido: a consumação do cordeiro pascal está agora abolida; no seu lugar introduz-se uma nova ação... No contexto de Paulo, a ordem de Jesus assume, de maneira mais marcada, o caráter de mandamento memorial: ação já conhecida e ritualmente estabelecida é agora plasmada ou revista de modo tal que se possa tornar memorial do Senhor". Quanto a 1Cor 11, "todo o teor das considerações... tende a recordar que na eucaristia se trata do Senhor e do seu memorial... [Para Paulo], trata-se do caráter memorial da ceia do Senhor". As afirmações do v. 26 comentam, depois, o segundo
mandamento de repetir o gesto, "isto é, elas indicam o motivo pelo qual a eucaristia na sua realização subjetiva deve ser considerada memorial: ela é objetivamente anúncio da morte do Senhor-, e, mais exatamente, 'ação-anúncio' acompanhada da palavra. O memorial objetivo pode, sem a menor dúvida, "consistir também em uma palavra-anúncio liturgicamente estabelecida e pertencente ao rito". "Trata-se de uma 'ação memorial' que é simultaneamente 'memorial real', porque tudo o que aí é pensado está presente. O corpo sacrifical e sangue sacrifical presentes, como vê a Igreja com o seu olhar profundo, representam de modo particular a morte sacrifical
do Senhor. Com efeito, já vimos que nos relatos da instituição a morte sacrifical é experimentada como algo presente. Provavelmente em 1 Cor 11,26 Paulo pensa nesta reapresentação cultual, quando chama a ceia do Senhor como tal - e igualmente com grande probabilidade a ação com as palavras memoriais que a constituem - de 'anúncio da morte do Senhor'. Tal presença da morte sacrifical de Jesus é o pressuposto para que na eucaristia nós possamos ser alimentados com o corpo e sangue sacrifical do Senhor-como a igreja sempre entendeu".
Como conceber de modo racional a atualização e a presença objetivas de um evento que não se repete e, apesar disto, se tornou acessível a quem vive hoje? Para explicar esta realidade e a sua plenitude paradoxal foram feitas as tentativas mais variadas e procurou-se antes de mais nada defini-la do ponto de vista terminológico e conceitual. Tratar-se-ia de uma 'repraesentatio' solene, da proclamação de um fenômeno válido ainda hoje, aqui e agora; de uma "intervenção e de uma ação salvífica de Deus, objetiva, eficaz, poderosa e criadora de realidade".Tal presença do que é historicamente passado e apesar disto continua presente, é possível para a intervenção de Deus: por meio da fé e em virtude do Espírito Santo é comunicada ao crente a ação salvífica de Cristo, do Filho de Deus encarnado, a sua ação sacrifical na cruz, de modo que ele possa nela tomar parte, nela inserir-se, para oferecer em Cristo, com Cristo e por meio de Cristo ao Pai o único sacrifício. Isto é algo mais do que uma presença de natureza dinâmica: o ato de Cristo faz sentir o seu efeito aqui e hoje e envolve em si aquele que dele faz memória. Santo Tomás de Aquino, a propósito da ação redentora de Cristo na cruz, afirmou em termos clássicos: "Virtute divina praesentialiter attingit omnia loca et tempora" (S. Th. III, q. 56, a. 1, ad 3; cf. q. 48, a. 6, ad 2). A ação salvífica de Cristo é ativamente presente de modo tal que, por parte de Cristo, é preciso falar de "identidade numérica", de um único ato sacrifical, ao passo que toda a novidade se registra por parte da igreja que realiza o rito. Também essa afirmação foi naturalmente aprofundada. Procurou-se explicar a presença da ação salvífica partindo de Deus, de modo que "Deus se recordaria do Filho" e faria que a sua ação salvífica produzisse efeito (J.
Jeremias).
Jeremias).
Na celebração da eucaristia, isto é, na ação sagrada em que a Igreja (sob a orientação do bispo [ou do seu representante], que representa Cristo) pronuncia sobre o pão e sobre o vinho a prece eucarística, para depois distribuir como santo alimento dos fiéis estes dons transformados no corpo e no sangue do Senhor, fazemos o que o Senhor nos mandou que fizéssemos: "Fazei isto em memória de mim". Essa ação é, portanto, memorial objetivo e não só (ainda que naturalmente o seja) lembrança subjetiva do que o Senhor fez por nós. Em outras palavras: ela é memorial real, não só mental, não uma lembrança puramente conceitual, não uma "nuda commemoratio", como definiu o concílio de Trento contra Lutero. Ao contrário, o conceito de 'memorial' possui um conteúdo tão denso e pleno já na sua aplicação dentro do AT e sobretudo no NT, que, aplicado à celebração eucarística, exprime "de certo modo" a presença da realidade comemorada, a sua "atualização objetiva", a sua presença "hic et nunc", de modo tal que para ele e para o sacrifício de Cristo nele presente valem as afirmações feitas pelo mesmo concílio de
Trento para defender a doutrina católica:
Trento para defender a doutrina católica:
A explicação de V. Warnach sublinha o caráter de kairós da ação sacrifical de Cristo, que é por certo historicamente passada, mas que, como ação divino-humana está acima do tempo e, portanto, como ação, pode ser explicada dinamicamente mesmo hoje, agora, no nosso tempo. N. Füglister, recorrendo a dados exegéticos mas também a idéias escolásticas medievais, formulou a coisa de maneira extraordinariamente feliz: "Correspondendo à vontade instituidora de Cristo, o culto eucarístico é essencialmente uma anamnese... Esse memorial dirige-se primeiramente ao passado: ao recordar-se, olha-se para trás procurando ver o Jesus histórico e a sua ação salvífica. Já este recordar-se subjetivo, mas sobretudo a execução objetivo-cultual do rito instituído então, tornam presente a salvação. Este tornar presente, por sua vez, se transforma em olhar dirigido à salvação futura, de que ação salvífica comemorada e penhor e que, no tornar-se presente desta última, já se acha de certo modo antecipada. Ao mesmo tempo, o memorial cultual determina e plasma toda a vida cristã, enquanto leva a deduzir e a motivar de maneira decisiva todas as ações morais sobretudo com base na ação salvífica passada revivificada pela liturgia, e depois também com base no futuro salvífico ainda por vir e ao estado atual de salvação" ("Tridimensional é também a liturgia cristã, que se baseia na [celebração veterotestamentária da páscoa] e a prolonga: memorial da ação salvífica realizada uma vez por todas, representação da salvação assim operada e visão antecipadora da plena posse dela que ainda está para vir")
O conteúdo do memorial, o que se torna presente em virtude do Espírito Santo, é a ação salvífica de Cristo, antes de tudo e diretamente a sua morte sacrifical e a ressurreição que a coroa, mas depois também toda a obra salvífica como única e grande unidade, que tem o seu centro justamente no "transitus paschalis", na passagem do Senhor da morte para a vida; isto equivale a dizer: também o seu ingresso no mundo, a sua encarnação como epifania do Deus salvador, epifania que, depois da passagem pascal para a vida a direita do Pai, um dia se realizará também para nós na parusia do Glorificado; enquanto isto nós, mediante a presença da sua ação sacrifical,
participamos da sua morte e ressurreição, recebemos a luz e a vida da sua epifania e o penhor da glória futura. No memorial real da eucaristia realiza-se, de modo concentrado, a obra da redenção dos homens e da glorificação de Deus
participamos da sua morte e ressurreição, recebemos a luz e a vida da sua epifania e o penhor da glória futura. No memorial real da eucaristia realiza-se, de modo concentrado, a obra da redenção dos homens e da glorificação de Deus
Constatamos um consenso muito amplo, por assim dizer, uma 'sententia communis': o memorial é conceito que exprime de modo excelente a doutrina de toda a tradição eclesiástica sobre o sacrifício da missa na sua relação com o sacrifício da cruz. O nosso culto é o memorial do Senhor, feito com palavras e com uma ação sacramental. Isto é verdade, em primeiro lugar, a respeito da ação da eucaristia: ela é memorial da morte e ressurreição do
Senhor. Tal memorial - em virtude do Espírito Santo, conforme a promessa do Senhor, por meio da fé - é memorial real, que torna presente de maneira eficaz e dinâmica a ação salvífica de Cristo (morte e ressurreição, isto é, a oferta sacrifical de Cristo como núcleo de toda a sua ação salvífica) não só na recordação subjetiva, mas na realidade objetiva. Fazendo este memorial, por meio dele participamos na doação sacrifical de Cristo, somos inseridos nela; e mais: em Cristo, com Cristo e por Cristo oferecemos o sacrifício dele ao Pai, agora como nosso sacrifício. O único sacrifício da cruz não se repete; no memorial, porém, ele está presente, é dado a nós 'hic et nunc' para a nossa salvação e para a glória de Deus Pai.
Senhor. Tal memorial - em virtude do Espírito Santo, conforme a promessa do Senhor, por meio da fé - é memorial real, que torna presente de maneira eficaz e dinâmica a ação salvífica de Cristo (morte e ressurreição, isto é, a oferta sacrifical de Cristo como núcleo de toda a sua ação salvífica) não só na recordação subjetiva, mas na realidade objetiva. Fazendo este memorial, por meio dele participamos na doação sacrifical de Cristo, somos inseridos nela; e mais: em Cristo, com Cristo e por Cristo oferecemos o sacrifício dele ao Pai, agora como nosso sacrifício. O único sacrifício da cruz não se repete; no memorial, porém, ele está presente, é dado a nós 'hic et nunc' para a nossa salvação e para a glória de Deus Pai.
Fim da citação.
Pax et Bonum! Ewerton Wagner Santos Caetano
Preparação: Irmã Eugênia e Márcio – Eixo Litúrgico

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